V SEMANA DE CIENCIAS SOCIAIS
TEMA: FRAGMENTAÇÃO OU NAÕ: EPISTEMOLOGIA E METODOLOGIA NAS CIÊNCIAS SOCIAIS
DATA: 16 A 19 DE JUNHO
INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E FILOSIFIA (ICHF)
Apresentação:
Será realizada, entre os dias 16 a 19 de junho, a quinta edição da semana de ciências sociais na universidade federal fluminense, com o tema: “fragmentação ou não: epistemologia e metodologia nas ciências sociais”, a se realizar no instituto de ciências humanas e filosofia (ICHF), contando com sua ampla estrutura física, o que proporciona a realização do evento com atendimento as necessidades para tal, e permitindo que o encontro tenha tudo necessário para alcançar seus objetivos, como a integração dos alunos de ciências sociais da UFF e de outras universidades; a discussão acerca das particularidades acadêmicas do curso; a integração entre corpos discente e docente, inclusive com professores renomados na área de outras universidades, o que possibilita um horizonte maior aos alunos em termos de conhecimento; atividades culturais e outros.
Justificativa:
A proposta de se realizar a semana de ciências sociais nestes moldes surgiu da necessidade encontrada pelos alunos em se discutir, a princípio, a fragmentação do curso de ciências sociais, a retirada de um de seus pilares, a antropologia, de seu quadro, e, em conseqüência disto, fazer uma discussão conceitual e profunda sobre a própria ciência, qual sua validade, sua aplicabilidade, a que ela corresponde e todos os desdobramentos que esta tem, desde quando se aprende a faze-la até sua aplicação prática, como o conhecimento científico é passado para os alunos e como estes, posteriormente enquanto profissionais, vão estar aplicando este conhecimento científico.
Objetivos:
A semana de ciências sociais tem como objetivo principal uma profunda discussão epistemológica e metodológica acerca das ciências sociais, das ciências humanas e da concepção de ciências como um todo, onde estas estão inserida, sua rede de relações sociais, isto é, para quem servem as ciências sociais e a ciências em geral. Desse modo queremos discuti-la numa perspectiva da ciência enquanto política, inserida nas relações de classe que formam a sociedade.
Tema: Fragmentação ou não: epistemologia e metodologia nas ciências sociais.
Contextualização:
Em época que o capitalismo (e aqui vamos nos eximir de lhe dar uma categorização mais científica, apenas usaremos este num sentido mais de senso geral) se apresenta como paradigma dominante e permeia todas as relações sociais, como trabalho, estudo e todas as outras, inclusive ideológicas e subjetivas, vemos o mundo do trabalho se adequar a tal ordem predominante em todas as suas esferas. E o conhecimento em geral também se alinha a esta perspectiva, inclusive acadêmico, onde a lógica é a gestão do conhecimento direcionada para o mercado, em detrimento de uma formação em função do próprio conhecimento em si. Vemos isto claramente nesta fragmentação do curso de ciências sociais, pois a particularização da ciência, como está sendo feita neste caso, caminha neste sentido, seguindo um “taylorismo” no conhecimento científico, uma especialização no sentido de atender uma otimização da ciência em prol do mercado, uma atitude buscando um efeito rápido e mecanizado, um conhecimento tecnicizado, onde se reproduz a idéia do segundo grau técnico, onde o estudante se concentra em particularidades de uma vertente científica e vira as costas para todas as outras vertentes deste mesmo conhecimento científico, se transformando num “apertador de parafusos” e sem tomar conhecimento de todo o processo de produção.
E o capitalismo se aproveita de sua legitimidade institucionalizada para determinar quais as prioridades e mesmo concepções das ciências de uma forma geral, assim como muitos aspectos da sociedade. Na academia, o Estado investe no conhecimento científico para reforçar seus discursos, conforme falou Schwartzman (1981:40):
“Como em um mercado, eles ‘vendem’ seus produtos em termos de prestígio e influência acadêmica. Como no mercado, a racionalidade individual leva o cientista a trabalhar nos temas que lhe sejam mais valiosos, quer dizer, que lhe dêem maior prestígio e reconhecimento. Ele busca vantagens comparativas, em termos de sua formação anterior e habilidades intelectuais. Se não consegue escolher bem seus temas, ele será rapidamente excluído do mercado pela competição. Assim, a república da ciência estimula a racionalidade individual, e ao faze-lo, estimula a ciência como um todo. (...) essa comunidade desenvolve, pelas leis do mercado, um conjunto de noções a respeito do que é importante e do que não é, que padrões de comportamento são aceitáveis e quais não o são, e quais problemas merecem ser estudados. Em termos mais atuais, ela desenvolve um paradigma comum de trabalho”.
Este trecho demonstra como a ciência tem sua produção influenciada, muitas vezes, por lógicas que estão fora do conhecimento científico, como política e mercado. E esta influência externa pode determinar objetos e metodologias de pesquisa, e não só, mas também o resultado desta pesquisa pode vir a atender interesses que se põem antagônicos a um conhecimento voltado para a transformação social, como, por exemplo, pesquisas financiadas por órgãos governamentais e fundações visam usar o discurso científico para legitimar concepções como controle social, políticas púbicas repressivas e várias outras, que tem seu recorte epistemológico claramente direcionado para interesses políticos das instituições que o patrocinam. As ciências sociais, tais como estão concebidas hoje dentro de uma lógica capitalista, transporta a diferenciação social de indivíduos para dentro da academia, numa disputa promíscua de aumento de privilégios e prestígio, reproduzindo, assim, uma concepção desigual pra dentro da academia, ou como designou Pedro Demo (1981:33), sobre a questão de pares científicos se fecharem dentro de seus grupos e visarem interesses próprios:
“As ciências sociais são construídas de modo geral não pelos desiguais, mas por pessoas beneficiárias do sistema, até mesmo porque conseguem alcançar a formação superior. Muito naturalmente os cientistas sociais procedem a embutir no conhecimento científico sua própria justificação. É fácil demais mostrar que a universidade corresponde muito mais aos beneficiários do sistema do que aos marginalizados. Extremando as coisas, produzem-se todas as ideologias encomendadas à troca dos respectivos interesses e privilégios”.
A importância da interdisciplinaridade
Dentro de uma perspectiva científica, o conhecimento se produz englobando várias áreas do conhecimento. É inegável a contribuição de matérias como história, geografia, direito, economia e outras para a formação de um bom cientista social, pois seus objetos são o mesmo, mudando muitas vezes apenas a metodologia entre tais. Quando um pesquisador faz um recorte espaço-temporal do seu objeto, invariavelmente, está se reportando a outros campos do conhecimento científico. Esta perspectiva, porém, é posta de lado quando se pensa um conhecimento tecnicizado, pois tal perspectiva valoriza um conhecimento compartimentalizado, onde não se recorre a outros campos do conhecimento para a construção do seu método de pesquisa. A intradisciplinaridade é um fenômeno cada vez mais comum, trata-se da criação de subdisciplinas. Podemos citar como exemplo a Psicologia e a Psicologia da educação, estamos portanto a tratar de uma especialização dentro de outra especialidade. É necessário lembrar que as subdisciplinas podem ajudar muito no desenvolvimento de sua “disciplina mãe”, como ocorre no caso do exemplo citado. Mas é preciso estar atento ao fato de que facilmente as subdisciplinas perdem contato com suas disciplinas de origem, assim criando um universo dentro de outro, ajudando no fenômeno de uma crescente especialização sem contato com o mundo real.
O mito da neutralidade
É impressionante ver ainda hoje acadêmicos e pesquisadores reivindicarem a neutralidade científica, propagando a importância da isenção do cientista perante seu objeto de estudo. Esta neutralidade é inexistente, pois o cientista carrega consigo todo o aparato apreendido na sua formação tanto acadêmica quanto social, e este aparato permeia toda a sua produção, ou, como se costuma dizer “quem fala, fala de algum lugar, ninguém fala do vácuo ou vendo tudo por cima”, então a neutralidade axiológica é usada inocentemente, ou muitas vezes como embuste para legitimar uma suposta objetividade da ciência e, por conseqüência, sua legitimação nos cânones acadêmicos, onde a ciência busca se institucionalizar cada vez mais se alinhar a regras gerais de concepção e metodologia de ciência generalizada. E tal neutralidade é inexistente tanto no campo científico quanto no campo político, pois se não existe a neutralidade científica, igualmente não existe a neutralidade política, e todo posicionamento, mesmo científico, é um posicionamento político. Quando um cientista investe numa concepção tecnicista, como é a da fragmentação do curso de ciências sociais, mesmo que involuntariamente, está investindo numa concepção tecnocrata, reflexo de uma sociedade meritocrata, onde mesmo dentro da academia vemos uma intensa disputa por estar na ponta da produção do conhecimento, criando assim uma competição entre os pesquisadores, certos saberes ao invés de serem difundidos entre seus pares, se torna um trunfo de certos pesquisadores para se destacar e se diferenciar de outros.
O cientista e seus posicionamentos
Discutir concepções pedagógicas e científicas é discutir toda concepção de sociedade, pois não são coisas descoladas, muito pelo contrário, são a mesma coisa. Quando fazemos a crítica ao processo de taylorização do conhecimento das ciências sociais, fazemos a crítica a todo sistema capitalista e seus pormenores. Quando aceitamos que a neutralidade não existe, tanto no campo científico quanto no campo político, nos vemos obrigados a tomar um posicionamento com relação a todo o processo, pois o não-posicionamento não existe, e não se posicionar significa corroborar com todo o processo, portanto o verdadeiro criticismo do cientista social leva a uma crítica maior, onde ele vê a rede de interesses em que o conhecimento está submetido e deve se posicionar a favor da transformação de todas as contradições da academia e da sociedade, em detrimento de reproduzir todos esses conceitos. O cientista social crítico deve perceber que a academia investe em produzir conhecimento para legitimação de um discurso que é elitista, e buscar em produzir um conhecimento voltado para a população em geral, buscar uma academia popular, onde o conhecimento não é um troféu ou um produto de barganha política, mas um instrumento de melhoria social e visando o bem comum.
Público alvo:
Estudantes de graduação e pós-graduação em ciências sociais, pesquisadores da área ou de áreas afins, assim como a comunidade acadêmica da UFF e de outras instituições de ensino.
Atividades:
1) Palestras
2) Debates
3) Oficinas
4) Atividades culturais
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